Dois atos com um dia de intervalo. Em 22 de março de 1869, um decreto concedeu a Luís Alves de Lima e Silva demissão do comando em chefe das forças em operação contra o governo do Paraguai, e o barão de Muritiba, ministro da Guerra, lhe comunicou o ato por aviso de 24 de março.64 46 Em 23 de março, outro decreto o fez duque de Caxias. A carta imperial correspondente saiu do Palácio do Rio de Janeiro em 10 de abril.64 46 Capistrano de Abreu, em 1903, resume a mercê como dada "pelos relevantes serviços prestados na guerra do Paraguai" e observa que ele já era marechal do exército efetivo.6 O texto do decreto não foi lido, e não está na Coleção das Leis daquele ano, onde o único decreto de 23 de março trata de imposto sobre indústrias e profissões.14
A proximidade das duas datas não é interpretação. É o que os dois documentos dizem. O homem que voltara doente e sem esperar licença, como o capítulo anterior narrou, foi formalmente dispensado do comando num dia e elevado ao título mais alto da nobreza do Império no dia seguinte.
Seis dias depois, em 29 de março, escreveu da Tijuca ao visconde do Rio Branco. A carta está no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e o inventário da coleção já a lista como carta "do D. de Caxias". Não foi lida. O que se sabe dela é a data, o lugar e o destinatário.64 Há outras duas do mesmo destinatário no período, uma de Quissamã, em 13 de janeiro de 1870, e uma incompleta do Rio, em 30 de janeiro de 1871.64 Quissamã é onde Cláudio Moreira Bento situa a casa da filha mais velha.60
A defesa do comando no Senado, em julho de 1870, pertence ao capítulo anterior, que a narra. Fica aqui apenas a precisão que faltava lá: foi na 29.ª sessão, em 15 de julho de 1870, e o discurso ocupa as páginas 94 a 102 dos Anais, abrindo com o pedido de palavra "para defender-me das innumeras accusações dirigidas contra mim nesta casa, em minha ausencia".36
Depois disso, sua voz no Senado quase não aparece nas páginas consultadas. Uma exceção, e é pequena. Em 11 de agosto de 1871, no debate sobre a licença para a missão de Cotegipe ao Prata, o visconde do Rio Branco, presidente do Conselho, disse que no Paraguai havia menos de quatro mil homens e que provavelmente não chegavam a três mil. Pompeu opôs os "três mil setecentos e tantos" do relatório. Caxias interveio com quatro palavras: "Não chegam a 3.000."63 Não corrige ninguém. Confirma o chefe do governo contra o número do papel, com a autoridade de quem comandara aquele exército.
Conselheiro de Estado
Em 12 de outubro de 1870, um decreto o nomeou conselheiro de Estado extraordinário.64 Quatro dias depois, em 16 de outubro, a ata do Conselho de Estado Pleno o registra presente entre "os dois recentemente nomeados", com Saião Lobato.35 A matéria daquela primeira sessão era a neutralidade brasileira na guerra franco-prussiana e as presas trazidas ao porto do Rio de Janeiro. Caxias concordou com o parecer da Seção.35 Bento diz que passou logo a efetivo, ou vitalício, e a data dessa segunda nomeação não está em documento consultado.60
Entre 1870 e 1873 as atas do Pleno o registram em quatro situações distintas, e a distinção importa mais do que a lista de temas. Há sessões em que apresentou voto próprio, sessões em que aderiu ao voto de outro conselheiro, uma sessão a que faltou e para a qual enviou parecer por escrito, e sessões de que simplesmente esteve ausente.35 Dizer que "votou" sem dizer qual das três primeiras coisas fez é dizer pouco.
Os votos próprios são três, e são os documentos em que sua opinião aparece com a sua assinatura. Em 20 de julho de 1871, sobre brasileiros envolvidos na guerra civil uruguaia e sobre a perda de cidadania, patentes honorárias e pensões, respondeu por conta própria aos cinco quesitos: preferiu solução legislativa e recusou retirar patentes ou pensões sem base legal.35 Em 8 de novembro de 1873, sobre a responsabilização e suspensão de bispos e párocos, distinguiu funções espirituais de temporais e admitiu medidas civis dentro dos limites que ele mesmo explicitou.35 Em 23 de janeiro de 1875, leu voto próprio sobre a administração das dioceses de Olinda e do Pará durante a Questão Religiosa.37 Este terceiro é anterior em cinco meses ao gabinete que ele viria a chefiar, e por isso não é ato de governo. É a posição pessoal dele sobre a questão que o governo dele depois resolveria.
Há uma sessão que mostra outra coisa. Em 15 de novembro de 1871, discutia-se uma proposta privada de introdução de imigrantes em grande escala, com empréstimo, terras, receitas e garantias do Estado. Caxias não compareceu e mandou parecer por escrito, que foi lido em sessão. O parecer é crítico à amplitude das concessões e à insuficiência do tempo de exame.35 É a melhor prova de que a função não era honorífica para ele: ausente, ainda assim deu opinião.
E há uma sessão com um problema interno. Em 20 de maio de 1872, na crise entre o gabinete e a Câmara dos Deputados, ele defendeu a dissolução da Câmara, entendendo não haver razão documentada para negar confiança ao ministério. O nome dele, porém, não figura na relação inicial de presentes daquela ata, nem entre os conselheiros que a assinaram.35 A fala está registrada; a presença, não. É inconsistência da ata, e fica como tal.
Nas demais sessões em que aparece, o que a ata registra é adesão: votou de conformidade com o barão do Bom Retiro sobre a saída do imperador e a Regência da princesa, em 25 de abril de 1871; conformou-se com os conselheiros precedentes sobre a paz com o Paraguai, em 22 de dezembro de 1871; votou com São Vicente sobre os tratados de 1872, embora tenha respondido separadamente aos quesitos sobre a ilha do Atajo.35 Em nenhum desses casos a fundamentação do voto acompanhado pode ser atribuída a ele.
Em 12 de outubro de 1872 não compareceu, e a ata anota que ele, o barão do Bom Retiro e Torres Homem não estiveram presentes "por incomodados". A matéria era um tratado de extradição com a Grã-Bretanha.35 É o primeiro registro de ausência por saúde que os volumes do Conselho trazem, e é um só, sem continuidade.
O que as atas do Pleno não mostram é onde, segundo Bento, esteve a maior parte do trabalho. As resoluções do Conselho em matéria de Guerra e Marinha corriam pela 4.ª Seção, e Bento afirma que todas as do período trazem a assinatura de Caxias, entre elas doze petições de graça de militares condenados à morte e uma de prisão perpétua. Cita duas: um requerimento de uma mãe, em 26 de julho de 1871, assinado por moradores de Pelotas e Rio Grande, pedindo perdão a um ex-alferes condenado a galés perpétuas; e uma resolução de 15 de março de 1872 para indenizar um proprietário com apólice de mil réis em vez de lhe devolver um escravizado que se alistara no Exército.60 Nada disso está nos volumes de atas consultados, que são do Pleno. Bento se apoia num levantamento de Paulo José Pires Brandão que não foi visto. A segunda resolução, se confirmada, seria a única peça documental do período sobre a posição de Caxias diante da escravidão no serviço militar, e por isso mesmo não entra aqui como fato.
Nesses anos foi também provedor da Irmandade Santa Cruz dos Militares, em 1871 e 1872.60 É detalhe que só ganha sentido oito anos depois.
Setembro de 1871
Capistrano escreve que o gabinete que caiu antes de 1875 foi o que "com o voto de Caxias libertou o ventre escravo".6 A frase atribui a ele um voto favorável à lei de 28 de setembro de 1871.
Os Anais do Senado foram lidos para isso. A votação final foi na 99.ª sessão, em 27 de setembro de 1871, e não em 28, que é a data da sanção. Na chamada daquele dia, ao meio-dia, acharam-se presentes 38 senadores, e o duque de Caxias está entre eles. O resultado vem numa linha: "Findo o debate e posta a votos, foi approvada para ser dirigida á sancção imperial."38 Não há votação nominal. Silveira da Motta fez declaração individual de voto; Caxias não deixou equivalente nessa ata.
Isso não desmente Capistrano e não o confirma. O que os Anais permitem dizer é que Caxias estava presente quando o Senado aprovou a lei, e que o registro que individualizaria seu voto não existe nessa ata. A atribuição continua sendo de Capistrano, trinta e dois anos depois, e assim fica.
Março de 1874
Ana Luísa Carneiro Viana, duquesa de Caxias, morreu em 23 de março de 1874. A data está na cronologia de Adriana Barreto de Souza, na de Bento e em Capistrano.46 60 6 Capistrano reproduz entre aspas uma frase de Caxias: "Perdi o maior bem que neste mundo gozava, a minha virtuosa companheira de 41 anos, no dia 23 de março de 1874". Não diz de que carta nem para quem.6 A frase entra como Capistrano a reproduz, não como documento localizado.
Um mês depois, em 23 de abril de 1874, Caxias fez testamento. A data vem de duas fontes que não dependem uma da outra: a cronologia de Bento e a descrição arquivística do Museu Histórico Nacional, que guarda o original em oito páginas manuscritas, em mau estado de conservação, com transcrição parcial datilografada e o envelope.60 67 A descrição do Museu não diz o que o testamento contém. Diz quem é nomeado nele, e a lista inclui Francisco Nicolau Carneiro Nogueira da Gama, o visconde de Tocantins, Luís Alves, João de Sousa da Fonseca Costa, a baronesa de Suruí e o capitão Salustiano de Barros e Albuquerque.67
O conteúdo vem de Bento, que não diz de que cópia leu. Segundo ele, as principais disposições foram estas: não ser embalsamado e dispensar honras militares e do Império; ser sepultado pela Irmandade Santa Cruz dos Militares, sem convites; ser levado ao túmulo por seis soldados de bom comportamento, dos mais antigos da guarnição da Corte; deixar todas as armas, a espada de comando e o cavalo ao marechal João de Souza Fonseca Costa, seu ajudante de ordens na guerra contra Oribe e Rosas e chefe de estado-maior no Paraguai; dois contos de réis à afilhada Ana; quatrocentos mil réis e toda a roupa de uso ao criado Luís Alves; trinta mil réis a cada soldado que carregasse o caixão; e o relógio com corrente de ouro ao capitão Salustiano.60 Os nomes que Bento dá são os que a descrição do Museu lista. É a coincidência que faz o relato dele parecer vindo do documento, e ainda assim não substitui a leitura.
O inventário dos bens está no mesmo acervo, com o genro Nogueira da Gama como inventariante e testamenteiro, e reúne trinta e oito peças.67 Entre elas, dois certificados de matrícula de escravos do duque de Caxias, um de 12 de abril de 1872 e outro de 18 de junho de 1880, este já do processo de inventário, e dois certificados de tabelião comprovando registro de alforria de escravizado pertencente à família.67 A descrição não diz quantas pessoas, nem nomes, nem idades, nem destino. É o único documento localizado sobre a questão, e o que ele permite afirmar é isto: havia pessoas escravizadas matriculadas em nome de Caxias em 1872, e um certificado de matrícula foi expedido em junho de 1880 para o inventário. Se eram as mesmas pessoas, quantas, e o que foi feito delas na partilha, está nas páginas que ninguém leu. O inventário traz também os termos de doação de bens às duas filhas por ocasião dos casamentos, certificados de imposto predial de 1880, petições sobre apólices e a partilha amigável entre os herdeiros.67
Em 1877, o genro recebeu o título de barão de Santa Mônica, e Caxias escreveu à filha, em julho, felicitando-a.60 O nome designava tanto o título do genro quanto a fazenda onde ele morreria.
O gabinete de 25 de junho
Em 25 de junho de 1875, por decreto, Caxias assumiu pela terceira vez a presidência do Conselho de Ministros, acumulando a pasta da Guerra.64 A data foi fixada por duas fontes independentes: o decreto, descrito no inventário do IHGB, e a publicação oficial da Câmara dos Deputados de 1889 sobre as organizações ministeriais, que abre a seção com "26.º GABINETE, 25 de junho".68 O gabinete ficou conhecido como Ministério São João, do dia anterior.60 Outras datas circulam na bibliografia, entre elas 22 de janeiro, 28 de junho e 25 de julho, e nenhuma delas está apoiada em documento consultado.60 46
A composição, pela mesma publicação de 1889: no Império, José Bento da Cunha e Figueiredo, visconde do Bom Conselho; na Justiça, Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque; nos Estrangeiros, o barão de Cotegipe, também interino na Fazenda e depois efetivo; na Marinha, Luís Antônio Pereira Franco; na Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Tomás José Coelho de Almeida; e na Guerra, o próprio Caxias. Em 15 de fevereiro de 1877 houve substituições no Império, na Justiça e nos Estrangeiros.68
Ao apresentar o ministério, Caxias disse ter sido chamado ao paço de São Cristóvão "no dia 23 do corrente" e anunciou um programa: manter a paz externa sem quebra da dignidade do Império, moderação, observância das leis, ensino popular, orçamento, auxílios à lavoura, reforma eleitoral e liberdade de voto nas eleições que presidisse.60 O discurso é conhecido pela reprodução de Bento, sem página dos Anais. É programa anunciado, não realizado.
Sobre como aceitou o cargo há um documento em primeira pessoa, e é o melhor do capítulo. Em carta à filha mais velha, datada de 17 de julho de 1875, reproduzida por Bento, Caxias conta que foi a São Cristóvão "firme em não aceitar", que o imperador o abraçou e disse que não o largaria sem que aceitasse, que ameaçou chamar os liberais e responsabilizá-lo pelas consequências, e que ele ponderou a idade e a incapacidade sem que nada fosse atendido. Termina: "Que fazer, minha querida Anicota, senão resignar-me e morrer no meu posto!"60 A carta diz "Só hoje, que é domingo", e 17 de julho de 1875 foi sábado. O original não foi visto, e a inconsistência pode ser da data ou da transcrição.
Capistrano dá a mesma cena de outro ângulo: o imperador queria viajar aos Estados Unidos e, segundo ele, dizia não fazê-lo com segurança sem deixar o Estado nas mãos de Caxias; enquanto esteve fora, Caxias "montava guarda ao Trono".6 A metáfora é de Capistrano. A pressão imperial, que ele afirma, a carta confirma.
A anistia
O ato mais conhecido do gabinete é o Decreto n.º 5.993, de 17 de setembro de 1875, que "Concede amnistia aos Bispos, Governadores e outros Ecclesiasticos das Dioceses de Olinda e do Pará". O artigo único os anistia e impõe "perpetuo silencio" aos processos instaurados por causa dos interditos postos a irmandades das duas dioceses. Assina Diogo Velho Cavalcanti de Albuquerque, ministro da Justiça.14 Bento dá o número do decreto como 5093, nos dois pontos em que o cita; o número correto está na publicação original.60
Bento afirma mais: que o imperador era contra a anistia, que assinou com a ressalva "Faço votos para que as intenções do Ministério sejam compensadas pelos resultados da Anistia, mas não tenho esperanças disto", e que Caxias obteve a assinatura contra a opinião do chefe de Estado.60 É a versão corrente na literatura militar sobre ele.
As atas do Conselho de Estado não a sustentam nem a desmentem. Na sessão de 8 de setembro de 1875, em que se discutiu o perdão ou a anistia dos bispos, Caxias está presente como presidente do Conselho e ministro da Guerra, e a ata não registra intervenção nem voto individual dele. O mesmo se repete nas outras duas sessões do Pleno em que aparece como chefe de gabinete, em 23 de outubro de 1875 e 22 de março de 1877: presença ministerial, nenhuma manifestação.37 A ata distingue ministros de conselheiros votantes, e a posição do governo não é fala pessoal.
O que existe, do lado dele, é o voto de 23 de janeiro de 1875, cinco meses antes de assumir, sobre a administração das mesmas dioceses.37 Aquilo é opinião pessoal documentada sobre a Questão Religiosa. O que veio depois foi ato de governo. Entre uma coisa e outra, a autoria pessoal da anistia é afirmação de Bento.
Janeiro de 1878
Caxias deixou o governo em 5 de janeiro de 1878.46 60 A imprensa daqueles dias dá a sequência sem dar o lugar. Em 3 de janeiro, o Jornal da Tarde noticiava que os padecimentos do duque haviam se agravado nos últimos dias. Uma notícia da Corte datada de 1.º de janeiro, reproduzida na imprensa provincial, informava que o imperador já havia acedido ao pedido de exoneração do ilustre enfermo antes da demissão dos demais ministros. Em 9 de janeiro, outra notícia registrava que ele passava melhor e que, seguindo seus hábitos, se confessara e comungara.39
Quase dois anos depois, em sessão do Conselho de 28 de outubro de 1879, Sinimbu declarou que em 3 de janeiro de 1878 comparecera perante o imperador em cumprimento de ordem transmitida por Caxias.37 Isso documenta que Caxias transmitiu a ordem imperial, dois dias antes de sair. Não documenta que escolheu o sucessor.
Capistrano interpreta o modo como o imperador exigiu a retirada "do resto do ministério" como "a afronta final", e diz que desde então Caxias "não fez mais que vegetar".6 A ordem dos atos que ele pressupõe, a exoneração de Caxias antes da queda dos outros, a imprensa confirma. A afronta é juízo de 1903.
Para onde foi, as fontes discordam. A cronologia de Adriana Barreto de Souza diz que se recolheu na Tijuca. Bento diz que se recolheu, muito doente, à Fazenda de Santa Mônica.46 60 As duas coisas podem ter acontecido em sequência, e nenhuma fonte diz isso. As três notícias de janeiro não nomeiam lugar nenhum. Este capítulo não escolhe.
O que as atas do Conselho registram em seguida é a ausência. Em 30 de março e em 10 de abril de 1878, já fora do gabinete, a ata anota expressamente que faltou por enfermidade.37 São os únicos registros explícitos de doença nos volumes, e são próximos um do outro. Em 7 de novembro de 1878 e em 28 de fevereiro de 1880 não consta entre os presentes, e a ata não dá causa.37 Omissão não é diagnóstico, e nenhum é formulado aqui.
Santa Mônica
A Fazenda de Santa Mônica ficava, segundo Bento, à margem esquerda do Paraíba, cerca de um quilômetro de Juparanã, em Valença, com estação ferroviária em Desengano. A cronologia de Adriana Barreto de Souza a situa em Vassouras.60 46 A descrição de Bento é mais específica e coerente consigo mesma em três menções, e é a que este capítulo segue, dizendo de quem é.
Dos últimos anos ali só há o relato de Bento, sem fonte indicada, e ele entra como relato. Caxias ficou aos cuidados da filha mais velha, a baronesa de Santa Mônica. Nos primeiros tempos melhorou e voltou a percorrer a fazenda a cavalo. Passou mal num exercício de equitação e teve de ser tirado da sela. Dias depois pediu o cavalo arreado e não conseguiu mais montar, por falta de força nos braços e nas pernas, e recusou a ajuda do empregado. Em pouco tempo usava uma cadeira de rodas improvisada, restrito ao segundo piso da casa e à sacada de onde via o rio.60 Os gestos e as falas dessa cena não têm documento. A sequência de declínio é o que Bento conta, e é tudo o que se sabe.
Bento fecha a conta em "oitocentos e cinquenta dias". De 5 de janeiro de 1878 a 7 de maio de 1880 vão cerca de 853, e a aproximação é dele.60 Em 4 de janeiro de 1880, durante o Motim do Vintém no Rio, Caxias estava recolhido havia mais de um ano.60 O que acontecia na Corte já não passava por ele.
Maio de 1880
Morreu em 7 de maio de 1880, aos 76 anos, a três meses de completar 77. É a única data deste bloco em que concordam todas as fontes, inclusive o Archivo Nobiliarchico de 1918.46 60 6 A hora, não: a imprensa da época traz sete horas, oito horas e oito e um quarto, e Bento dá "entre 8h e 9h da noite".60 Nenhuma foi conciliada.
Bento descreve a cena: vários dias tranquilos, uma piora sensível ao anoitecer, a cama cercada pela filha, pelo genro, pelo neto, pelo monsenhor Meireles, pelo coronel José Julião Carneiro da Silva, pelo amigo Carlos Arthur da Silva e pelo empregado Manuel; a despedida de todos.60 Não há documento para a lista. Segundo o mesmo autor, amortalharam-no na farda de marechal do exército com as medalhas de cobre do Mérito Militar e da Campanha Geral do Paraguai, velaram-no na capela da fazenda até a tarde seguinte, e o corpo foi levado a braço até a estação de Desengano, de onde saiu em trem especial para o Rio.60 A farda convive com a dispensa de honras militares do testamento. Não são a mesma coisa, e o texto não as funde.
Há uma fonte de época sobre o que veio depois, e é a primeira deste capítulo sobre o funeral. O Apóstolo, em 12 de maio de 1880, publicou extratos do Jornal do Commercio sobre o enterro, apresentando-os como tais. Neles constam a morte na fazenda de Santa Mônica, as manifestações no Senado e na Câmara, a missa de corpo presente na fazenda, o transporte do corpo para a residência da rua do Bomfim, o sepultamento no cemitério de São Francisco de Paula, ao lado da esposa, e o cumprimento da vontade testamentária de dispensar aparato oficial e honras militares.40 13 O trecho sobre o traslado anuncia, para "hoje" às nove e meia da manhã, a saída dos restos mortais da residência da rua do Bomfim para o último jazigo, no cemitério de São Francisco de Paula, ao lado da esposa.40 Esse "hoje" é da edição reproduzida, não de 12 de maio, e por isso não fixa o dia sozinho.
O dia é 9 de maio segundo o texto de Bento, que dá as nove e meia da manhã de saída do palacete e a chegada ao cemitério às onze. A própria cronologia de Bento dá 10 de maio, e uma terceira passagem do mesmo livro, sobre a manifestação da Sociedade dos Veteranos da Independência no sepultamento, dá 11.60 A imprensa confirma a hora e o cemitério; o dia fica com a ressalva.
O cortejo que Bento descreve não é simples. O corpo chegou à estação D. Pedro II às 17h45 e foi recebido pelo conde de Iguaçu e por Beaupaire-Rohan, representantes do imperador e da imperatriz, que puseram à disposição da família um coche imperial destinado ao enterro de príncipes.60 No dia do enterro, seis quilômetros de cortejo da rua Conde de Bonfim ao Catumbi, com ministros, senadores, deputados, representações do Exército, da Marinha, da imprensa e do clero.60 Bento cita o Jornal do Commercio sobre a multidão, com a fila de carros estendendo-se até a Conde de Bonfim e o portão do cemitério tão cheio que os soldados mal conseguiram passar. Esse trecho não foi localizado em exemplar de época, e a reprodução de O Apóstolo não o traz.60 13 Entra, portanto, como citação de Bento.
O caixão foi carregado por soldados, um cabo e treze praças de várias unidades da guarnição que se revezaram, segundo Bento, cumprindo a disposição do testamento.60 No cemitério falaram, entre outros, o major Alfredo de Taunay em nome do Exército, o senador Correia pelo Senado e Rosendo Muniz pelo Instituto Histórico, do qual Caxias era sócio desde 1847.60 64 De Taunay, Bento transcreve a frase sobre a "simplicidade na grandeza" e o fecho sobre os seis soldados que representavam "o corpo e espírito de todo o Exército Brasileiro".60 Bento transcreve a mesma frase de Taunay de duas maneiras diferentes em dois pontos do livro, e a citação fica com essa ressalva.
Capistrano escreveu que, na agonia, Caxias "rejeitou todas as honras e pompas oficiais, quis ser enterrado como obscuro paisano".6 Em 1903 isso era literatura. Hoje tem dois apoios de conteúdo: a descrição que Bento faz do testamento, e um jornal de cinco dias depois da morte dizendo que a dispensa foi cumprida. O testamento em si está localizado e não lido, e a descrição arquivística confirma exatamente esse limite. E ainda assim houve o coche imperial, os representantes do trono e os seis quilômetros. As duas descrições não se excluem. O que o testamento dispensava, pela descrição que dele se tem, eram honras militares e do Império, e convites. Não o comparecimento. Que a Corte comparecesse de qualquer modo não contraria a vontade dele; mostra que ela não bastava para conter o resto.
O que ficou dito
Capistrano registra uma frase de Caxias sobre a política: "Antes anos de dura guerra do que meses de gabinete". Bento registra a mesma ideia de duas outras formas, uma atribuída ao monsenhor Pinto de Campos, "Prefiro anos de campanha militar mais dura a meses no Ministério", e outra numa carta a Osório em que a estratégia seria livrar-se de qualquer pasta, "de que sempre tive mais medo do que das baterias de Lopes".6 60 São três versões da mesma ideia, e nenhuma tem documento localizado. Somá-las não faz três provas.
Bento conclui que Caxias "não apreciava a função, por desapego ao poder" e que a chefia do governo era "o seu calvário".60 É juízo sobre estado interior. A carta de 17 de julho de 1875 diz outra coisa, mais simples e mais verificável: que ele foi decidido a recusar, que o imperador não deixou, e que ele ficou.
Este capítulo começou com dois decretos a um dia de distância e termina com um enterro em que a vontade escrita do morto e a Corte que veio vê-lo dividiram a mesma manhã. Entre uma ponta e outra há um conselheiro que votou por escrito quando não pôde ir, um chefe de governo sob o qual se decretou uma anistia cuja autoria as atas não lhe dão nem lhe tiram, uma viuvez que produziu um testamento um mês depois, e um recolhimento final que Bento situa em Santa Mônica e de que só se conhece o relato dele. O que é documento está nas notas. O que é leitura está com o nome de quem leu.
Referências
Obras citadas nesta página, na ordem em que aparecem no texto.
Fontes primárias e documentos de época
- ABREU, J. Capistrano de. "O Duque de Caxias". Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 4 ago. 1903. Reproduzido na Revista do IHGB, t. LXIX, parte II, 1906, e depois em Ensaios e estudos, 2ª série, 1932. https://horadopovo.com.br/o-duque-de-caxias-por-capistrano-de-abreu/
- Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, edições de 1856, 1857 e 1880. Hemeroteca Digital Brasileira, Biblioteca Nacional. https://memoria.bn.gov.br/
- BRASIL. Coleção das Leis do Império do Brasil, 1856 a 1875: leis, decretos e avisos citados neste texto. Rio de Janeiro: Typographia Nacional. https://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/legislacao/colecao-anual-de-leis
- BRASIL. Conselho de Estado. Atas do Conselho de Estado Pleno: Terceiro Conselho de Estado, 1868-1873. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/anais/atas-do-conselho-de-estado
- Anais do Senado do Império, 1870, livro 2. Brasília: Senado Federal. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/anais/anais-do-imperio
- BRASIL. Conselho de Estado. Atas do Conselho de Estado Pleno: Terceiro Conselho de Estado, 1875-1880. Brasília: Senado Federal; Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/anais/atas-do-conselho-de-estado
- Anais do Senado do Império, 1871, livro 5. Brasília: Senado Federal. https://www25.senado.leg.br/web/atividade/anais/anais-do-imperio
- Jornal da Tarde, Rio de Janeiro, janeiro de 1878. Hemeroteca Digital Brasileira, Biblioteca Nacional. https://memoria.bn.gov.br/
- O Apóstolo, Rio de Janeiro, 12 de maio de 1880. Hemeroteca Digital Brasileira, Biblioteca Nacional. https://memoria.bn.gov.br/
Biografias, estudos e obras de referência
- SOUZA, Adriana Barreto de. Duque de Caxias: o homem por trás do monumento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. 616 p. ISBN 978-85-200-0864-5.
- BENTO, Cláudio Moreira. Duque de Caxias: o patrono do Exército Brasileiro. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 2022. 488 p. https://www.eceme.eb.mil.br/images/biblioteca/duque_de_caxias_o_patrono_eb.pdf
- FRANCO, Álvaro da Costa (org.). Com a palavra, o Visconde do Rio Branco: a política exterior no Parlamento Imperial. Rio de Janeiro: CHDD; Brasília: FUNAG, 2005. https://funag.gov.br/biblioteca-nova/produto/1-728-com_a_palavra_o_visconde_do_rio_branco_a_politica_exterior_no_parlamento_imperial
- INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO BRASILEIRO. Inventário da Coleção Duque de Caxias. https://atom.ihgb.org.br/index.php/duque-de-caxias-luis-alves-de-lima-e-silva
- MUSEU HISTÓRICO NACIONAL. Coleção Duque de Caxias. Inventário, 2009-2010. https://atom-museuhistorico.museus.gov.br/index.php/duque-de-caxias
- CÂMARA DOS DEPUTADOS. Organisações e programmas ministeriaes desde 1822 a 1889. Rio de Janeiro, 1889.