Capítulo 10 de 12

Dezembro, Assunção e a volta

A Dezembrada, a tomada de Assunção, o desentendimento com o governo e a volta ao Rio de Janeiro.

O arroio corria em torrente por uns cinco metros de largura e levantava névoa ao cair num desfiladeiro. Chamava-se Ytororó. Estava cercado de espinheiros e mato fechado, e só a ponte e a clareira do outro lado davam passagem a tropa. Caballero havia postado ali três mil e quinhentos homens, recém-chegados de uma noite inteira de marcha e cansados, mas em posição que os brasileiros não podiam contornar.66

A data do ataque àquela ponte não é pacífica. Sátiro de Oliveira Dias situa o combate em 6 de dezembro de 1868, que é a data corrente na historiografia brasileira. Whigham escreve que Caxias ordenou o ataque para as primeiras horas de 7 de dezembro.33 66 Este capítulo não escolhe entre as duas.

Na noite anterior, elementos montados sob Niederauer haviam feito um reconhecimento, atravessado o curso d'água, encontrado resistência e recuado. A ponte não ficou assegurada.66 Sátiro registra que "constou no exército" que Caxias mandara aquela cavalaria para longe da ponte, e é preciso ler a frase pelo que ela é: o próprio autor a apresenta como notícia corrente, não como ordem que tenha visto.33

A ponte

Gravura da passagem e tomada da ponte sobre o arroio Itororó
“Episódio da passagem e tomada da ponte sobre o arroio Itororó, no dia 6 de dezembro de 1868”, conforme o título da gravura.

Caxias entendeu que a ponte era vital e determinou o ataque frontal.66 O coronel Fernando Machado rompeu pelo desfiladeiro com quatro batalhões de infantaria e caiu antes de tomá-la. Niederauer carregou depois, com cinco regimentos de cavalaria rio-grandense, tomou quatro canhões e empurrou os paraguaios para o mato, até o contra-ataque de Rivarola e Godoy. Gurjão entrou em seguida, levando o 1.º batalhão de infantaria, o 36.º de voluntários, o 24.º e o 51.º, e foi derrubado do cavalo por uma bala Minié que lhe cortou uma artéria do braço esquerdo. Um sargento o carregou nas costas sob fogo. Argolo veio depois.66 Foi então que Caxias avançou pessoalmente para a ponte, à frente da tropa. Whigham e Sátiro registram a ação, embora discordem sobre quase todo o resto daquele dia.66 33

É aqui que entra uma das frases mais conhecidas da história militar brasileira. Whigham a reproduz em inglês, "All of you who are Brazilians, follow me!", atribuída a Caxias naquele momento. Mas a nota dele não remete a documento contemporâneo: remete a Tasso Fragoso e a William Warner, autores posteriores.66 A frase pertence, portanto, à tradição, e não ao registro. Este capítulo não a põe entre aspas como voz documentada de Caxias, e quem quiser fazê-lo precisará antes localizar o testemunho que a sustenta. O gesto de avançar está nas duas fontes. A fala, não.

Whigham critica a escolha do ataque frontal e considera que havia alternativas. É juízo do historiador, formulado com o benefício de saber o que aconteceu, e fica identificado como tal.66

As baixas divergem muito. Whigham oferece uma cifra principal e registra, em nota, números diferentes dados por Resquín e por Sena Madureira; Sátiro tem os seus.66 33 Não há como produzir um total, e este capítulo não tenta. O 3.º corpo de Osório chegou tarde ao combate, e as explicações também variam entre ordens mal transmitidas, guia, terreno e confusão operacional.66 33

Sátiro, que seria o crítico mais duro do comando, reconhece a coragem pessoal de Caxias naquele dia mesmo ao condenar a direção do combate.33 É o que dá peso à sua crítica: ela não precisa negar a bravura para sustentar o resto.

Avaí

Representação da Batalha de Avaí em dezembro de 1868
A Batalha de Avaí, travada em dezembro de 1868.

Cinco dias depois, em 11 de dezembro, veio o Avaí. Whigham descreve a posição paraguaia, estima os efetivos e registra a ordem de ataque para as dez horas.66 33 Os efetivos são estimativa dele.

Osório foi ferido no curso do combate.66 33 Caxias assumiu a condução do 2.º corpo naquele momento, o que é coisa distinta de comandar a operação inteira, que já era sua.66 A ação de Mena Barreto sobre o flanco contribuiu para romper os quadrados paraguaios, e o mérito é dele.66

As baixas do Avaí também aparecem em versões incompatíveis.66 33 A divergência se repete por uma razão simples: as fontes contam categorias diferentes, mortos, feridos, dispersos, prisioneiros, e não há como somar números de origens distintas sem produzir uma cifra que não existiu. Que houvesse também interesse de cada lado em inflar as perdas alheias é suposição razoável, mas nenhuma das páginas consultadas a documenta, e por isso fica fora.

Lomas Valentinas

O conjunto dos combates de dezembro ficou conhecido como Dezembrada. Convém saber que o nome é moldura posterior: organiza retrospectivamente uma sequência que, na hora, foi uma série de ações separadas por dias e por decisões.66

Whigham atribui a Caxias o plano do ataque de 21 de dezembro a Lomas Valentinas.66 A ordem original não foi consultada, e a atribuição é dele. No combate, Mena Barreto e Bittencourt tiveram ações próprias, que não devem ser absorvidas no nome do comandante.66

Herói da Guerra do Paraguai, obra de Adrien Henri Vital van Emelen
Herói da Guerra do Paraguai, de Adrien Henri Vital van Emelen.

Por volta das dezoito horas Caxias interrompeu o combate. McMahon, o ministro norte-americano junto a López, criticou a decisão.66 São duas proposições diferentes: a interrupção é narrativa, a censura é opinião de um observador identificado e que estava do outro lado. As contagens de baixas daquele dia divergem outra vez.66 33

No dia seguinte, Caxias pediu a Gelly y Obes um novo ataque, operação que ajudou a isolar Angostura.66 Em 24 de dezembro dirigiu um ultimato a López. Capistrano de Abreu reproduz o texto do ultimato e o da resposta de López, mas o que existe neste corpus é a reprodução de 1903, sem cotejo com o original.6 Os dois documentos aparecem aqui parafraseados, e não entre aspas: Caxias intimou a rendição, López recusou.

O ataque final foi em 27 de dezembro. Whigham descreve força aliada numerosa e a ação de flanco comandada por Rivas.66 López escapou por Potrero Mármol, passagem que o historiador considera inexplicavelmente aberta.66 A rota é fato; o advérbio é juízo dele.

A fuga gerou o que fugas assim costumam gerar. Circularam acusações de que Caxias teria deixado López escapar de propósito. Whigham registra o rumor e o debate, e não os toma como prova de conluio.66 Este capítulo faz o mesmo: registra que a acusação existiu, sem convertê-la em acordo demonstrado. Ele responsabiliza o comando pela lentidão da perseguição, o que é crítica de outra natureza, e rejeita as explicações conspiratórias mais simples.66

Depois de Lomas Valentinas os aliados capturaram bandeiras e mais de cem peças, segundo o mesmo autor.66 Angostura capitulou em 30 de dezembro, o que não se confunde com rendição de López.66 Os termos da capitulação e a condição em que estava a guarnição aparecem em versões diferentes.66

Sátiro conta que se ofereceu para perseguir López e que lhe responderam que dispunha de apenas noventa homens.33 É alegação sua, sem ordem original que a confirme, e entra como versão.

O exército paraguaio parecia destruído. Whigham observa que López conservava capacidade de resistência, e o que veio depois lhe deu razão.66

Assunção, e a guerra que não acabou

Prisioneiros paraguaios durante a ocupação aliada de Assunção em 1869
Prisioneiros paraguaios durante a ocupação aliada de Assunção, em 1869.

Cerca de mil e setecentos brasileiros desembarcaram em Assunção em 1.º de janeiro de 1869, segundo Whigham.66 O grosso das unidades entrou no dia 5, em procissão organizada conforme instruções de Caxias, e a cronologia registra a entrada pessoal dele na mesma data.66 46

Começa aí o episódio que a biografia de Caxias nunca resolveu.

A cidade foi saqueada. O saque envolveu integrantes de diferentes contingentes, e as páginas consultadas não trazem ordem pessoal de Caxias para saquear.66 Essa ausência não o absolve: o comandante responde pela disciplina da força que comanda, e é justamente essa a acusação. Mas também não permite escrever que ele mandou saquear, porque isso ninguém documentou. Em 8 de janeiro celebrou-se um Te Deum enquanto o saque ainda ocorria.66 A simultaneidade está registrada e vale pelo que é, sem que se transforme justaposição em causalidade.

Havia também uma proclamação. Whigham reproduz uma de 28 de dezembro; Sátiro informa que um boletim apareceu em 29.66 33 Pode ser o mesmo texto com datas diferentes ou dois documentos, e o impresso não foi localizado.

Caxias declarou a guerra encerrada e preparou a transferência do comando sem aguardar autorização do Rio de Janeiro.66 Ao mesmo tempo, e isso limita a ideia de paralisação completa, enviou força móvel em direção a Luque e Areguá.66 Declarar a guerra encerrada era uma avaliação política; a operação continuava.

E ela continuou mesmo. López e os remanescentes mantiveram a guerra até 1870, e a história paraguaia não se fecha com a missão de Caxias.66

Doença

Retrato em cores de Caxias em uniforme, identificado como de 1869
Retrato identificado no arquivo como de 1869, ano do retorno da campanha e da concessão do título de duque.

Whigham descreve um homem exausto e febril. Caxias tinha sessenta e cinco anos, passara quase três dias sem dormir antes de a tropa entrar em Assunção, e caiu na cama que os criados lhe prepararam na casa do falecido general Barrios. A temperatura passava dos trinta e sete graus.66 Não era só ele: muitos oficiais superiores aliados estavam doentes, Andrade Neves morreu em 6 de janeiro, o ajudante dele morreu pouco depois, Guilherme Xavier de Souza e o almirante Inácio não deixavam a cama, e Osório e Argolo Ferrão ainda não haviam se recuperado dos ferimentos.

Em 12 de janeiro pediu para ser substituído ou, ao menos, ter licença.66 Dois dias depois, sem resposta do Rio de Janeiro, expediu a Ordem do Dia n.º 272, que declarava formalmente encerrada a guerra.66 O documento é conhecido por citação e não foi consultado no original.

Em 17 de janeiro, durante a missa na catedral de Assunção, desmaiou. Levaram-no para os seus aposentos, recobrou os sentidos por um momento e desmaiou de novo.66 Segundo a imprensa de língua inglesa citada por Whigham, os médicos não julgaram prudente que esperasse a confirmação do sucessor.66 Embarcou na noite de segunda no Pedro Segundo e partiu na manhã de terça, o que pela cronologia cai em 18 e 19 de janeiro.66 A autorização imperial não havia chegado.

Sátiro minimiza a doença e chama a saída de abandono, sustentando que desmoralizou as forças.33 É a acusação central do opúsculo de 1870, e fica atribuída a ele.

No regresso, Caxias evitou Buenos Aires e ficou em Montevidéu para convalescer.66 Que tenha evitado a capital argentina de propósito é interpretação, porque não há carta que o diga. Chegou ao Rio em 15 de fevereiro, data em que a cronologia e Capistrano concordam.46 6 Whigham afirma que não houve recepção oficial e que o imperador só o recebeu em 21 de fevereiro.66

São seis dias entre a chegada e a audiência. Um marechal voltava da guerra depois de tomar a capital inimiga e nenhum representante oficial o recebeu. O que houve no cais, quem esteve lá e quem não esteve, as páginas consultadas não dizem.

Em 22 de março foi relevado do comando. No dia 23 foi feito duque.46 As duas datas estão na cronologia; os atos oficiais, com a fórmula e o alcance jurídico da mercê, não foram localizados. A distância de um dia entre as duas coisas é toda a ambiguidade do episódio posta em calendário.

O que se disse depois

Preparativos para a celebração da vitória do Brasil na Guerra do Paraguai em 1870
Preparativos para a celebração da vitória do Brasil na guerra, em 1870.

Em julho de 1870, já com a guerra terminada e López morto, Caxias falou no Senado. Defendeu que Montevidéu ainda integrava o distrito de operações, o que respondia à acusação de ter abandonado o teatro, e sustentou que declarar encerrada a guerra exprimia a avaliação que ele fazia da situação.66 O discurso é conhecido por citação de Whigham e os Anais de 1870 não foram consultados nesta pesquisa. Whigham entende que o Senado se inclinou a absolvê-lo politicamente, e que isso contribuiu para a memória pública que se formou depois.66

Capistrano, em 1903, ofereceu a interpretação que se tornaria padrão: Caxias considerou cumprida a sua missão, e continuar a guerra assumiria o caráter de perseguição pessoal a López.6 É juízo de trinta e quatro anos depois, e vale como leitura, não como motivo comprovado.

Sátiro, do outro lado, afirma que depois da saída de Caxias houve exercícios diários e reorganização dos batalhões de voluntários, isto é, que o exército se recompôs sem ele.33 Não há ordens nem relatórios que confirmem, e a afirmação entra atribuída.

Entre as duas versões há um fato que nenhuma delas discute: em agosto de 1868, quatro meses antes de tudo isso, Caxias já havia proposto ao governo que se negociasse a paz, e o imperador recusara. O capítulo anterior registrou a proposta pela paráfrase de Doratioto, porque o ofício não foi lido no original. Quem lê os dois episódios em sequência encontra um comandante que achava a guerra ganha em agosto, foi mandado continuar, venceu quatro batalhas em dezembro, declarou a guerra encerrada em janeiro por conta própria e voltou doente sem esperar licença. A coerência entre as duas pontas é evidente. Tratá-la como prova de intenção seria ir além do que as fontes permitem, porque de nenhuma delas temos o documento.

O que fica documentado é mais modesto e talvez mais interessante: a guerra em que ele se tornou duque foi também a guerra em que quis parar antes do fim. Da proposta de agosto às vitórias de dezembro correram quatro meses; ao ducado, em março de 1869, sete.

Referências

Obras citadas nesta página, na ordem em que aparecem no texto.

Fontes primárias e documentos de época

  1. ABREU, J. Capistrano de. "O Duque de Caxias". Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 4 ago. 1903. Reproduzido na Revista do IHGB, t. LXIX, parte II, 1906, e depois em Ensaios e estudos, 2ª série, 1932. https://horadopovo.com.br/o-duque-de-caxias-por-capistrano-de-abreu/
  2. DIAS, Sátiro de Oliveira. O Duque de Caxias e a Guerra do Paraguay: estudo crítico-histórico. Bahia: Typographia do Diario, 1870. https://digital.bbm.usp.br/handle/bbm/5319

Biografias, estudos e obras de referência

  1. SOUZA, Adriana Barreto de. Duque de Caxias: o homem por trás do monumento. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. 616 p. ISBN 978-85-200-0864-5.
  2. WHIGHAM, Thomas L. The Road to Armageddon: Paraguay versus the Triple Alliance, 1866-70. Calgary: University of Calgary Press, 2017. 672 p. https://press.ucalgary.ca/books/9781552388099/